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Sensibilidade sensorial no autismo: hiper e hipossensibilidade, adaptações e o papel da terapia ocupacional

Como reconhecer hiper e hipossensibilidade, adaptações em casa e na escola, o papel da terapia ocupacional e o que se sabe sobre integração sensorial.

Por Equipe Jornada TEAAtualizado em 21/09/2026Fontes secundárias

Barulho de liquidificador que parece insuportável, etiqueta de roupa que incomoda o dia inteiro, corte de cabelo que vira uma batalha, ou, no outro extremo, uma criança que parece não sentir dor, procura se balançar o tempo todo ou leva tudo à boca. Diferenças na forma de perceber e reagir aos estímulos são muito comuns no autismo e podem afetar a rotina tanto quanto a comunicação.

Este guia explica o que são essas diferenças, como observá-las e, principalmente, o que dá para ajustar em casa, na escola e nos atendimentos, além do papel da terapia ocupacional e do que se sabe, com honestidade, sobre a integração sensorial.

O que são as diferenças sensoriais

Desde o DSM-5, a hiper ou hiporreatividade a estímulos sensoriais, ou o interesse incomum por aspectos sensoriais do ambiente, faz parte dos critérios diagnósticos do TEA. O manual dá exemplos como aparente indiferença à dor ou à temperatura, reação negativa a sons ou texturas específicas, cheirar ou tocar objetos em excesso e fascinação visual por luzes ou movimento.

O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP, 2024) descreve dois padrões principais:

  • Hipersensibilidade: desconforto com estímulos que, para a maioria das pessoas, não são incômodos.
  • Hipossensibilidade: necessidade de estímulos mais intensos do que o habitual para percebê-los, o que pode levar a buscar sensações (girar, pular, apertar, morder).

A mesma pessoa pode ser hipersensível a um tipo de estímulo e hipossensível a outro, e a reação pode variar com cansaço, fome, ansiedade e ambiente.

Como pode aparecer em cada sentido

A SBP lista como modalidades envolvidas o tato, a audição, o sistema vestibular (equilíbrio e movimento), a propriocepção (percepção do próprio corpo), paladar, olfato, interocepção (sinais internos do corpo) e práxis (planejamento motor). Alguns exemplos:

Sentido Pode indicar hipersensibilidade Pode indicar hipossensibilidade ou busca
Audição Tampar os ouvidos, fugir de lugares barulhentos, sofrer com secador, descarga, fogos Fazer barulho o tempo todo, procurar sons altos
Tato Recusar certas roupas, etiquetas, massinha, areia, grama; incômodo com toque leve, corte de cabelo e unhas Tocar tudo, preferir abraços muito apertados, levar objetos à boca
Visão Incômodo com luz forte, fluorescente ou piscante Fascinação por luzes, objetos que giram, ventiladores
Olfato e paladar Náusea com cheiros comuns, restrição a poucas texturas Cheirar objetos e pessoas, preferir sabores muito intensos
Movimento e corpo Medo de balanço, escada, pés fora do chão Girar, pular, balançar sem parar, esbarrar e se jogar
Interocepção Desconforto intenso com sensações internas Não perceber fome, sede, vontade de ir ao banheiro, frio, calor ou dor

Nenhum item isolado significa TEA nem define um perfil. O objetivo da tabela é ajudar você a descrever o que observa para a equipe.

Atenção à segurança

Quando a pessoa percebe pouco a dor ou a temperatura, machucados, febre ou queimaduras podem passar despercebidos. Vale checar o corpo depois de quedas, conferir a temperatura da água do banho e da comida e observar mudanças de comportamento que possam indicar dor. Nosso guia sobre condições associadas explica por que dor e problemas de saúde às vezes aparecem só como mudança de comportamento.

Comece observando: o diário sensorial

Antes de mudar qualquer coisa, registre por uma ou duas semanas:

  1. Situação: onde, com quem, que horas.
  2. Estímulo provável: barulho, luz, roupa, cheiro, multidão, espera.
  3. Reação: o que a pessoa fez (tampou os ouvidos, fugiu, gritou, se balançou, ficou paralisada).
  4. O que ajudou: sair do lugar, pressão firme, fone, previsão do que ia acontecer.

Esse registro ajuda a separar o que é sensorial do que pode ser ansiedade, dor, cansaço ou dificuldade de comunicação, e é muito útil na consulta com a terapeuta ocupacional.

Adaptações práticas em casa

As estratégias abaixo são usadas com frequência na prática clínica e educacional. Nem todas têm estudos específicos; funcionam como ajustes individuais, testados e revistos com a equipe.

  • Som: fones com redução de ruído ou protetores auriculares em lugares barulhentos; avisar antes de ligar aparelhos ruidosos; um cômodo mais silencioso para descanso.
  • Luz: luz indireta ou mais quente, cortinas, evitar lâmpadas que piscam.
  • Roupas: tirar etiquetas, preferir tecidos macios e costuras planas, deixar a pessoa escolher entre opções aceitáveis.
  • Higiene e cuidados: antecipar com apoio visual (fotos ou sequência de passos), usar contagem ("faltam 5"), testar temperatura e pressão da água, fazer corte de cabelo e unhas em momentos tranquilos e com pausas.
  • Movimento: para quem busca estímulos, reservar momentos diários de atividade física, pular, carregar objetos pesados com segurança, brincar em parques.
  • Canto calmo: um espaço previsível, com pouca estimulação, que a pessoa possa usar quando se sentir sobrecarregada, sem que isso seja castigo.
  • Previsibilidade: saber o que vai acontecer reduz o impacto de estímulos difíceis. Agendas visuais e avisos antes de mudanças ajudam.

Sinais de sobrecarga costumam aparecer antes do limite: tampar os ouvidos, ficar mais agitado, fugir, parar de responder. Reduzir estímulos nesse momento tende a funcionar melhor do que insistir.

Na escola

A diretriz britânica NICE (CG170) recomenda que os ambientes em que crianças e adolescentes autistas são cuidados considerem as sensibilidades individuais a iluminação, nível de ruído e cor das paredes e móveis, ofereçam apoios visuais e ajustem o espaço pessoal. Na escola, isso pode virar pedidos concretos:

  • lugar na sala longe de portas, janelas barulhentas e ventiladores;
  • permissão para usar fone ou protetor auricular em momentos específicos;
  • pausas programadas e um local calmo para se reorganizar;
  • aviso antecipado de simulados de incêndio, festas, sinais sonoros e mudanças de rotina;
  • alternativa ao recreio lotado ou ao refeitório barulhento, quando necessário;
  • flexibilidade de uniforme por questões de tecido.

A Lei Brasileira de Inclusão (Lei 13.146/2015) define adaptações razoáveis como os ajustes necessários, sem ônus desproporcional, para que a pessoa com deficiência exerça seus direitos em igualdade de condições (art. 3º, VI), e garante o sistema educacional inclusivo (art. 28). Peça que as adaptações constem no plano educacional individualizado. Veja direitos na escola e profissional de apoio escolar.

Em consultas e exames

A NICE (CG170) recomenda ajustar os processos de atendimento, por exemplo marcando consultas no início ou no fim do dia para reduzir a espera. Ao agendar, pergunte se é possível: horário com menos movimento, esperar fora da sala até ser chamado, sala com menos barulho, explicação prévia do procedimento com fotos. Leve objetos que acalmam e o fone, se a pessoa usa.

O papel da terapia ocupacional

A terapeuta ocupacional (TO) é a profissional que costuma avaliar e intervir nas questões sensoriais. Uma boa avaliação inclui entrevista com a família, observação, informações da escola e, muitas vezes, questionários padronizados. A diretriz da NICE (CG128) inclui as sensibilidades sensoriais no perfil de necessidades que deve orientar o plano de cuidado.

O foco deve ser funcional: participar do recreio, tolerar o corte de cabelo, vestir-se, comer com a família, ficar em sala. Peça que os objetivos sejam escritos de forma que possam ser verificados ("em 3 meses, participar de 10 minutos do recreio com apoio") e que a TO oriente a família e a escola, já que a maior parte das adaptações acontece fora da clínica.

Integração sensorial: o que a evidência diz

"Integração sensorial" é um termo usado para abordagens em que a TO oferece estímulos de movimento, toque e pressão (balanços, bolas, superfícies variadas) em atividades lúdicas, com o objetivo de melhorar a forma como a criança processa e responde aos estímulos. A versão mais estudada é a Integração Sensorial de Ayres, que tem requisitos próprios de formação do terapeuta e de ambiente.

A evidência é mista:

  • A Academia Americana de Pediatria (2012) afirma que a terapia ocupacional com abordagens sensoriais pode ser aceitável como um dos componentes de um plano de tratamento abrangente, mas que a pesquisa sobre a eficácia da integração sensorial é limitada e inconclusiva. Recomenda conversar sobre um período de teste e sobre como avaliar se está funcionando.
  • Uma revisão sistemática de 2019 (Schoen e colaboradores) concluiu que a Integração Sensorial de Ayres, quando aplicada fielmente ao modelo, pode ser considerada prática baseada em evidência para crianças autistas de 4 a 12 anos. A conclusão, porém, se apoia em apenas três estudos, dois deles ensaios randomizados, e os autores têm ligação com instituições da própria abordagem.

Na prática: pode fazer sentido como parte do plano, conduzida por profissional com formação específica, com objetivos claros e reavaliação após um período combinado. Se não houver ganho funcional, discuta a mudança de estratégia. Não deve substituir outras intervenções indicadas pela equipe.

O que evitar

  • Promessas de que um protocolo sensorial vai "curar" ou "normalizar" o autismo.
  • Treino de integração auditiva para problemas de fala e linguagem: a NICE (CG170) recomenda não usar.
  • Programas caros sem avaliação inicial, sem objetivos escritos e sem relatórios de evolução.

Como conseguir terapia ocupacional

Quando procurar ajuda

Procure a equipe (médico, TO) se as questões sensoriais:

  • impedem atividades básicas, como vestir-se, tomar banho, cortar cabelo ou frequentar a escola;
  • levam a autolesão ou a situações de risco (buscar estímulos perigosos, não perceber dor);
  • mudaram de repente ou pioraram muito, o que pode indicar outra causa, como dor ou ansiedade;
  • estão gerando sofrimento importante para a pessoa ou esgotamento da família.

Adolescentes e adultos também podem se beneficiar de avaliação e de ajustes no trabalho e nos estudos; veja diagnóstico e vida adulta.

Próximos passos

Perguntas frequentes

Integração sensorial funciona?

A evidência é limitada e ainda discutida. A Academia Americana de Pediatria considera que a terapia ocupacional com abordagens sensoriais pode ser um componente de um plano mais amplo, mas que a pesquisa sobre sua eficácia é limitada e inconclusiva. Uma revisão sistemática de 2019 concluiu que a Integração Sensorial de Ayres, aplicada conforme o protocolo, tem evidência favorável para crianças autistas de 4 a 12 anos, mas com base em poucos estudos. O ideal é combinar objetivos concretos e reavaliar o resultado após um período definido.

Usar fone ou protetor auricular atrapalha a criança a se acostumar com o barulho?

Não há resposta única. Reduzir um estímulo que causa sofrimento costuma permitir que a pessoa participe de atividades que de outra forma evitaria. O uso deve ser combinado com a terapeuta ocupacional, que pode planejar quando usar e quando trabalhar a tolerância de forma gradual e respeitosa.

Adultos autistas também têm diferenças sensoriais?

Sim. As diferenças sensoriais fazem parte dos critérios diagnósticos em qualquer idade, e a diretriz da NICE para adultos inclui a hiper e a hipossensibilidade na avaliação. No trabalho, ajustes como local mais silencioso ou iluminação diferente podem ser pedidos como adaptação razoável.

Fontes

  1. IACC/HHS – DSM-5 Diagnostic Criteria: Autism Spectrum Disorder (critérios e Tabela 2: níveis de gravidade) — Interagency Autism Coordinating Committee – U.S. Department of Health and Human Services, acessado em 21/09/2026
  2. SBP – Manual de Orientação nº 176: Transtorno do Espectro do Autismo em Pediatria: etiologia, triagem e diagnóstico (Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento) — Sociedade Brasileira de Pediatria, acessado em 21/09/2026
  3. CDC – Signs and Symptoms of Autism Spectrum Disorder — Centers for Disease Control and Prevention (EUA), acessado em 21/09/2026
  4. NICE – Autism spectrum disorder in under 19s: recognition, referral and diagnosis (Clinical guideline CG128) – Recommendations — National Institute for Health and Care Excellence (Reino Unido), acessado em 21/09/2026
  5. NICE – Autism spectrum disorder in under 19s: support and management (Clinical guideline CG170) – Recommendations — National Institute for Health and Care Excellence (Reino Unido), acessado em 21/09/2026
  6. NICE – Autism spectrum disorder in adults: diagnosis and management (Clinical guideline CG142) – Recommendations — National Institute for Health and Care Excellence (Reino Unido), acessado em 21/09/2026
  7. AAP Section on Complementary and Integrative Medicine; Council on Children with Disabilities. Sensory Integration Therapies for Children With Developmental and Behavioral Disorders. Pediatrics. 2012;129(6):1186-1189 — American Academy of Pediatrics / Pediatrics, acessado em 21/09/2026
  8. Schoen SA, Lane SJ, Mailloux Z, et al. A systematic review of Ayres Sensory Integration intervention for children with autism. Autism Research. 2019;12(1):6-19 — Autism Research (Wiley / International Society for Autism Research), acessado em 21/09/2026
  9. Lei nº 13.146/2015 – Lei Brasileira de Inclusão da Pessoa com Deficiência (Estatuto da Pessoa com Deficiência) — Planalto, acessado em 07/09/2026
  10. ANS – Resolução Normativa nº 469, de 9 de julho de 2021 – Altera a RN 465/2021 para regulamentar a cobertura obrigatória de sessões com psicólogos, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos para o tratamento/manejo do TEA — ANS, acessado em 07/09/2026

Aviso importante

Este conteúdo é informativo e não substitui avaliação médica, psicológica ou jurídica. Procure um profissional de saúde para diagnóstico e tratamento.

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