Diagnóstico
Condições associadas ao autismo: TDAH, ansiedade, epilepsia e outras que merecem investigação
Quais condições aparecem com frequência junto do TEA, que sinais pedem investigação, qual profissional procurar e como pedir avaliação pelo SUS ou pelo plano.
Receber o diagnóstico de transtorno do espectro autista (TEA) não encerra a investigação de saúde. Pessoas autistas têm, com mais frequência do que a população em geral, outras condições que podem passar despercebidas, justamente porque tudo acaba sendo atribuído "ao autismo". Algumas delas, como ansiedade, epilepsia ou dor por constipação, afetam muito a qualidade de vida e têm tratamento.
Este guia não serve para diagnosticar ninguém. A proposta é ajudar você a reconhecer sinais que merecem ser levados ao médico, saber qual profissional procurar e como pedir a avaliação.
Por que essas condições passam despercebidas
A diretriz britânica NICE (CG128) alerta que, em pessoas com dificuldade de comunicação, pode ser difícil reconhecer problemas físicos e de saúde mental. Uma criança que não consegue dizer "minha barriga dói" pode mostrar isso por irritação, choro, agressividade ou autolesão. Um adolescente com ansiedade intensa pode parecer apenas "mais rígido".
Por isso, a NICE (CG170) recomenda que, diante de um comportamento desafiador, a equipe investigue fatores como dor, problemas gastrointestinais, ansiedade, depressão, TDAH e o ambiente (luz, barulho, falta de previsibilidade) antes de concluir que se trata de uma característica do autismo. A mesma diretriz afirma que pessoas autistas devem ter acesso pleno aos serviços de saúde, inclusive de saúde mental, independentemente da capacidade intelectual ou de outros diagnósticos.
As condições mais citadas
O relatório clínico da Academia Americana de Pediatria (AAP, 2020) lista como coocorrências que afetam a função e a qualidade de vida: distúrbios do sono e da alimentação, sintomas gastrointestinais, obesidade, crises epilépticas, TDAH, ansiedade e episódios de fuga. O manual da Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP, 2024) reúne alguns números da literatura: deficiência intelectual em 30% a 35% das pessoas com TEA, TDAH em cerca de 28%, transtorno de ansiedade em cerca de 20% e transtorno depressivo em cerca de 11%. A epilepsia aparece em cerca de 21% das pessoas com TEA e deficiência intelectual e em cerca de 8% das que não têm deficiência intelectual. São estimativas de estudos, que variam conforme a população e o método, e não previsões para uma pessoa específica.
| Condição | Sinais que merecem investigação | Quem costuma avaliar |
|---|---|---|
| TDAH | Desatenção, agitação e impulsividade persistentes, em mais de um ambiente, além do esperado para a idade e para o perfil autista | Psiquiatra, neuropediatra ou neurologista; avaliação neuropsicológica pode complementar |
| Ansiedade e TOC | Medos intensos, preocupação constante, evitação de lugares, queixas físicas (dor de barriga, dor de cabeça), rituais que causam sofrimento | Psiquiatra e psicólogo |
| Depressão | Tristeza ou irritabilidade persistente, perda de interesse inclusive pelos interesses intensos, mudanças de sono e apetite, isolamento maior que o habitual | Psiquiatra e psicólogo |
| Epilepsia | "Desligamentos" com olhar parado, episódios de confusão, abalos, enrijecimento, perda de consciência, perda de habilidades | Neuropediatra ou neurologista |
| Deficiência intelectual | Dificuldades amplas de aprendizagem e de autonomia, não só na comunicação social | Neuropsicólogo, psicólogo, médico da equipe |
| Problemas gastrointestinais | Constipação, dor, alteração do hábito intestinal, piora de comportamento sem causa aparente | Pediatra ou clínico; gastroenterologista se necessário |
| Audição e visão | Não responder a sons, aproximar muito os objetos dos olhos | Otorrino, fonoaudiólogo (audiologia), oftalmologista |
| Coordenação motora e tiques | Quedas frequentes, dificuldade com escrita e atividades motoras; movimentos ou sons involuntários repetidos | Terapeuta ocupacional, fisioterapeuta, neurologista |
A NICE (CG128) também inclui nessa lista distúrbios de sono, problemas alimentares com dieta muito restrita, incontinência urinária ou fecal, autolesão, transtornos de linguagem e síndromes genéticas.
O que observar em cada uma
TDAH
TEA e TDAH compartilham alguns sinais, como dificuldade de atenção e de interação. A SBP observa que o contato visual pode ser mais breve no TDAH e que pode haver hiperfoco nos dois. Separar o que é de cada condição exige avaliação cuidadosa, com relatos de casa e da escola. Se o diagnóstico de TDAH for confirmado, o tratamento segue as recomendações para TDAH, adaptadas ao perfil da pessoa. Qualquer medicação só com prescrição e acompanhamento médico.
Ansiedade, TOC e depressão
Podem surgir em qualquer idade e nem sempre aparecem da forma típica. Na hora da transição para serviços de adultos, a NICE (CG170) recomenda avaliar especialmente depressão, ansiedade, TDAH e TOC. Um cuidado importante: interesses intensos e rotinas fazem parte do TEA e, em geral, trazem conforto. O sinal de alerta é quando rituais passam a gerar sofrimento, ocupam cada vez mais tempo ou são acompanhados de medo intenso.
Para quem tem ansiedade e consegue participar de uma terapia verbal, a NICE (CG170) sugere considerar terapia cognitivo-comportamental (TCC) adaptada, com mais recursos visuais e escritos, abordagem mais concreta e estruturada, participação dos pais, pausas regulares e uso dos interesses da pessoa na terapia. Vale perguntar ao psicólogo se ele faz essas adaptações.
Se houver fala sobre morte, desejo de sumir ou autolesão, não espere a próxima consulta: procure atendimento no mesmo dia (UBS, CAPS, pronto-atendimento). O CVV atende gratuitamente, 24 horas, pelo telefone 188. Em emergência, ligue 192 (SAMU).
Epilepsia
Nem toda crise epiléptica é uma convulsão com queda e abalos. O CDC descreve crises de ausência, em que a pessoa "desliga" por alguns segundos, fica com o olhar parado ou pisca rapidamente, e crises focais em que ela fica confusa e não responde por alguns minutos. Em pessoas autistas, esses episódios podem ser confundidos com distração ou com "estar no mundo dela".
O que fazer:
- Registre os episódios: data, horário, duração, o que aconteceu antes e depois. Se possível e seguro, grave um vídeo curto para mostrar ao médico.
- Leve ao neuropediatra ou neurologista. A diretriz de adultos da NICE (CG142) recomenda eletroencefalograma quando há suspeita de epilepsia. A SBP lembra que o exame não é de rotina para todos os autistas, mas é indicado quando a história sugere crises ou há perda de habilidades.
- Durante uma crise, segundo o CDC: fique com a pessoa, afaste objetos que possam machucar, vire-a de lado, não a segure e não coloque nada na boca dela. Chame o SAMU (192) se a crise durar mais de 5 minutos ou se outra crise começar logo depois.
A perda de habilidades já adquiridas (fala, gestos, autonomia), em qualquer idade, pede avaliação médica sem demora.
Deficiência intelectual
É registrada como especificador do diagnóstico, não como "nível". Identificar a deficiência intelectual ajuda a ajustar expectativas escolares, estratégias de ensino e objetivos de autonomia. Entenda a diferença em níveis de suporte no autismo.
Condições genéticas, audição e exames
O manual da SBP recomenda, depois do diagnóstico clínico, considerar exames genéticos para entender a causa e orientar a família sobre risco de recorrência, com testagem para síndrome do X frágil em todas as pessoas com TEA e investigação de síndrome de Rett em meninas com regressão do desenvolvimento. Também indica avaliação auditiva para afastar perda de audição. Exames laboratoriais devem ser guiados pela avaliação clínica, e não por listas extensas. Os resultados podem ou não encontrar uma causa, e isso não muda o direito ao cuidado.
Dor, intestino, sono e alimentação
Dor (de dente, de ouvido, abdominal) e constipação podem aparecer apenas como piora de comportamento em quem não consegue relatar o que sente; a NICE (CG170) inclui dor e problemas gastrointestinais entre os fatores a investigar. O CDC também cita problemas gastrointestinais, como constipação, entre as características que podem acompanhar o TEA. Problemas de sono e seletividade alimentar também são frequentes e merecem avaliação própria; não trate como "fase" se estiverem afetando a saúde ou a rotina da família.
Como pedir a investigação
Organize as informações
Antes da consulta, anote: o que mudou, desde quando, com que frequência, em quais ambientes e o que melhora ou piora. Traga relatórios da escola e dos terapeutas. Nosso guia sobre como preparar a consulta tem um roteiro.
Pelo SUS
- Comece pela UBS ou pelo serviço que já acompanha a pessoa (CAPSi, CER). O médico de família ou pediatra pode tratar condições como constipação e encaminhar para especialistas.
- Para suspeita de epilepsia, peça encaminhamento para neurologia ou neuropediatria; o eletroencefalograma costuma ser solicitado pelo especialista e agendado pela regulação.
- Para ansiedade, depressão ou TDAH, o caminho costuma ser o CAPSi (crianças e adolescentes) ou o CAPS (adultos), ou ambulatório de psiquiatria.
- Anote o número de protocolo de cada encaminhamento. Detalhes em como conseguir atendimento pelo SUS; para localizar serviços, use a ferramenta SUS.
Pelo plano de saúde
Consultas com psiquiatra, neurologista e neuropediatra e exames solicitados pelo médico assistente entram na cobertura dos planos regulados, observado o rol da ANS. Sessões de psicologia, fonoaudiologia e terapia ocupacional para pessoas com TEA têm cobertura sem limite de número desde a RN 469/2021 da ANS. Se houver negativa, veja o que fazer quando o plano nega.
Um cuidado sobre tratamentos
Tratar uma condição associada não significa "tratar o autismo". A NICE (CG170) recomenda oferecer intervenções psicossociais e medicamentosas para as condições coexistentes de acordo com as diretrizes de cada uma, adaptadas à pessoa autista. Medicações só com prescrição e acompanhamento médico, com reavaliação periódica. Desconfie de quem promete resolver várias condições ao mesmo tempo com um único produto, dieta ou protocolo.
Próximos passos
- Entenda quem faz o quê na equipe: quais profissionais atendem TEA.
- Encontre um neurologista, neuropediatra, psiquiatra ou psicólogo.
- Localize UBS, CAPSi, CAPS e CER na ferramenta SUS.
- Revise o plano de cuidados com a jornada recebi o diagnóstico.
- Estime quanto o acompanhamento pode custar na calculadora de custos de terapias.
Perguntas frequentes
Uma pessoa pode ter TEA e TDAH ao mesmo tempo?
Sim. O DSM-5-TR permite registrar o TEA associado a outro transtorno do neurodesenvolvimento, e o manual da Sociedade Brasileira de Pediatria de 2024 cita estudos em que cerca de 28% das pessoas com TEA também tinham TDAH. Os sinais se sobrepõem, então a avaliação precisa ser feita por profissional experiente, com informações de casa e da escola.
Toda criança autista precisa fazer eletroencefalograma?
Não. Segundo a SBP, eletroencefalograma e exames de imagem não devem ser pedidos de rotina, mas podem ser indicados conforme a história clínica: suspeita de crises, perda de habilidades já adquiridas ou alterações neurológicas. Quem decide é o médico que acompanha a criança.
Mudou o comportamento de repente. Pode ser 'só o autismo'?
Não assuma isso. Mudanças súbitas de comportamento podem ter causas como dor, constipação, problemas de sono, ansiedade ou outra condição de saúde, especialmente em quem tem dificuldade de comunicar o que sente. Vale uma consulta médica para investigar.
Fontes
- SBP – Manual de Orientação nº 176: Transtorno do Espectro do Autismo em Pediatria: etiologia, triagem e diagnóstico (Departamento Científico de Pediatria do Desenvolvimento e Comportamento) — Sociedade Brasileira de Pediatria, acessado em 21/09/2026
- NICE – Autism spectrum disorder in under 19s: recognition, referral and diagnosis (Clinical guideline CG128) – Recommendations — National Institute for Health and Care Excellence (Reino Unido), acessado em 21/09/2026
- NICE – Autism spectrum disorder in under 19s: support and management (Clinical guideline CG170) – Recommendations — National Institute for Health and Care Excellence (Reino Unido), acessado em 21/09/2026
- NICE – Autism spectrum disorder in adults: diagnosis and management (Clinical guideline CG142) – Recommendations — National Institute for Health and Care Excellence (Reino Unido), acessado em 21/09/2026
- Hyman SL, Levy SE, Myers SM; AAP Council on Children with Disabilities. Identification, Evaluation, and Management of Children With Autism Spectrum Disorder. Pediatrics. 2020;145(1):e20193447 — American Academy of Pediatrics / Pediatrics, acessado em 21/09/2026
- CDC – Signs and Symptoms of Autism Spectrum Disorder — Centers for Disease Control and Prevention (EUA), acessado em 21/09/2026
- CDC – Types of Seizures — Centers for Disease Control and Prevention (EUA), acessado em 21/09/2026
- CDC – First Aid for Seizures — Centers for Disease Control and Prevention (EUA), acessado em 21/09/2026
- CVV – Centro de Valorização da Vida: apoio emocional gratuito 24 horas (telefone 188, chat e e-mail) — Centro de Valorização da Vida, acessado em 21/09/2026
- ANS – Resolução Normativa nº 469, de 9 de julho de 2021 – Altera a RN 465/2021 para regulamentar a cobertura obrigatória de sessões com psicólogos, terapeutas ocupacionais e fonoaudiólogos para o tratamento/manejo do TEA — ANS, acessado em 07/09/2026
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